terça-feira, 20 de setembro de 2011

Frágil Contato





O shopping é lugar de performance?


Algumas situações são sugestivas para se pensar o próprio trabalho, indagando e refletindo sobre a prática artística e sua visibilidade. Não procuro uma resposta pronta, muito menos emitir juízo de valor, já que não se trata de – no caso em questão – definir ou justificar limites e parâmetros para ações artísticas.
Entretanto, realizar uma performance em um shopping de decoração e design de interiores me parece um bom motivo para uma pausa, um instante de linguagem capaz de abrigar fluxos de pensamento, antecedentes, presença de corpo, possibilidades porvir.
Ontem, dia 25 de setembro de 2011, realizei no Ponteio Lar Shopping uma ação de nome Frágil Contato. O que é um frágil contato? Seria uma impossibilidade de segurança? Uma forma de vulnerabilidade capaz de evidenciar a ausência de controle, de propriedade, de dominação, de estabilidade... política, social, econômica, sexual, amorosa? Nos tempos atuais prevalece o distanciamento entre os corpos. Máquinas de carne e vida desfilam nos espaços de consumo. Os objetos são atrativos, as cores múltiplas, os desejos capitalizados pelo desejo de propriedade. O shopping é território definido, de trocas simbólicas entre compradores, outros compradores e lojas e produtos.
Obviamente existem outras presenças, outras possibilidades de ocupação desses lugares. Namoros, encontros clandestinos, cinema, almoço e lanche! Quais outros? Não imagino muitos! Não me sinto tranqüilo dentro de um shopping. Muitos seguranças, rotas pré-definidas, padrões de comportamento controlados, produtos acima dos preços habituais dentre outros sistemas de captura das singularidades, subjetividades criativas.
Frágil Contato é uma ação que já realizei anteriormente. No caso do Ponteio, a ação não foi exatamente a mesma. O que prevaleceu foi a ideia original, a marca que define a ação – segurar pratos pela boca mantendo-os fixos, entre a boca e a parede, até que eles caem ao chão e se quebram. E, pensando no shopping, o que esta ação sensibiliza? Será que uma ação no espaço frio de um shopping tem poder de alcance? Ela esquenta o lugar? Ela o transforma? Ela é mero produto?
Algumas perguntas que faço são: Qual o motivo para o convite? O que me levou a aceitar? Quais experiências posso absorver? Como o estranhamento, nesse encontro entre prática performática e território de um shopping, contribuem para uma reflexão do momento artístico? Estive concentrado durante a performance e não me dei conta da situação externa, dos transeuntes, do público involuntário. Após quebrar o último prato, me sentei na cadeira preta que até então servia de apoio e sustentação dos mesmos. Pareceu-me que sentar ali fazia de mim um corpo simbólico frágil como os pratos, virtualmente caco. Nesse momento, olhando ao meu redor, pude perceber uma grande quantidade de pessoas observando a ação. Elas aplaudiram! E o aplauso de cada uma delas foi como uma perfuração.
Sensível e em outro estado de consciência, resultado da concentração e repetição dos gestos, percebi o vazio existente entre meu corpo e os outros corpos. Percebi a fragilidade que mantinha a atenção do outro. Naquele momento, não me levantei da cadeira. Algumas pessoas ficaram paradas, outras se foram, o tempo voltou à normalidade. Um duo de artistas, com programação em seqüência a minha, começou sua ação e eu, ainda sentado, quase chorei.
Mas o shopping como lugar de ações performáticas ainda me vem a cabeça. E não consigo, felizmente, uma resposta capaz de satisfazer a tantas perguntas.
















domingo, 11 de setembro de 2011